- Produtos de Trading da Binance
- Binance – “Uma rede obscura de entidades corporativas”
- Operações de negociação exclusivas da Binance
- Transações com as Opções
- Operações com informação privilegiada
- Operações de lavagem
- Binance Futures: A principal razão por trás da volatilidade do mercado da Bitcoin
- CoinMarketCap – Uma ferramenta ao serviço da guerra de informação
- A perspetiva da Binance
Changpeng Zhao e Sam Bankman-Fried durante os melhores momentos. Fonte: Trustnodes
Produtos de Trading da Binance
Antes de nos debruçarmos sobre as táticas de manipulação do mercado, vamos examinar os produtos de negociação que a Binance oferece aos seus utilizadores – participantes involuntários nesta mentira.
- Mercado à vista: O mercado à vista da Binance permite realizar compras e vendas diretas de ativos digitais com base nos preços de mercado reais. Com uma posição dominante nos volumes de negociação no mercado à vista nos últimos cinco anos, a Binance suporta uma grande variedade de criptomoedas com mais de 350 ativos e um total superior a 1.200 parceiros de negociação.
- Futuros: A plataforma Binance Futures permite que os utilizadores negociem criptomoedas sem possuir os ativos. Uma caraterística que se destaca nestes Futuros é a opção de negociar com alavancagem – até um valor surpreendente de 125x. Os lucros obtidos com os Futuros são consideráveis para as bolsas, especialmente para a Binance, que capta de forma consistente mais de metade das liquidações em dias de mercado volátil, muitas vezes totalizando centenas de milhões de dólares. Essencialmente, estas liquidações são determinadas por um índice em que o valor da própria Binance desempenha um papel fundamental – facto que ganhará maior importância à medida que a nossa análise for avançando.
- Opções: A negociação de Opções na Binance permite que os utilizadores especulem sobre o valor futuro das criptomoedas mesmo sem as possuírem. Ao contrário dos Futuros, as Opções não estão sujeitas a liquidação, fazendo destas uma ferramenta ideal para os profissionais que têm posições consideráveis a longo prazo. A Binance, no entanto, oferecia inicialmente apenas Opções de curto prazo, com períodos tão curtos como alguns minutos até um único dia, resultando em críticas que ,segundo as quais, se tratava mais de um mecanismo para extrair dinheiro dos pequenos investidores do que de uma ferramenta de negociação válida. Ao longo do tempo, a Binance aumentou as Opções para oferecer termos mais abrangentes, mas continua a deter menos de 5% de quota no mercado de Opções.
Interesse agregado nas Opções da Bitcoin. Fonte: The Block
Binance – “Uma rede obscura de entidades corporativas”
Muitas pessoas suspeitavam que a Binance explorava os seus utilizadores muito antes de serem feitas quaisquer acusações formais. Se a BitMEX opera com um afiliado que negoceia contra os seus clientes, o que é que impede a Binance de se envolver em práticas semelhantes? Como único responsável pela proteção de informações sensíveis, como ordens de paragem e limites de liquidação, a Binance senta-se numa mesa de poker tendo sempre uma perspetiva completa das mãos dos seus adversários.
Em 2023, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) e a Securities and Exchange Commission (SEC) apresentaram várias queixas contra a Binance. Descreveram a Binance como sendo “a maior bolsa de ativos digitais centralizada do mundo, operando através de uma rede obscura de entidades empresariais, todas elas controladas em última instância por Zhao”.
Operações de negociação exclusivas da Binance
No processo da CFTC, Zhao é identificado como o proprietário direto ou indireto de aproximadamente 300 contas diferentes na Binance, além das contas empresariais Merit Peak Limited e Sigma Chain AG, que se dedicam exclusivamente à negociação na plataforma. A questão em causa está na distinção entre as atividades de Market-Making, que fornecem liquidez e lucram com os spreads Bid-Ask, e a negociação por conta própria, em que uma empresa negoceia para o seu próprio benefício em conjunto com os clientes, tirando partido da volatilidade do mercado.
O risco inerente à negociação por conta própria, que pode conduzir a uma perda total dos activos, levou à aplicação de regulamentos rigorosos após a crise de 2008 para limitar estas práticas no sector bancário. O famoso colapso do império criptográfico de Sam Bankman-Fried, devido à negociação privada efetuada pela Alameda Research e à utilização indevida dos fundos dos clientes da FTX, é também um exemplo importante.
Outro problema com as operações da Binance reside na transparência. Enquanto a existência da Alameda Research era pública, as atividades de negociação da Binance permaneceram ocultas, só sendo reveladas devido às alegações dos reguladores dos EUA. Esta falta de transparência levanta muitas questões sobre a integridade das operações da Binance e o potencial conflito de interesses em relação à confiança dos seus utilizadores.
“A Binance não divulga aos seus clientes que a Binance está a negociar nos seus próprios mercados nos seus Termos de Utilização ou em qualquer outro meio, o que é coincidente com a aparente tentativa de manter em segredo as suas atividades de negociação privadas nos seus próprios mercados”, refere a CFTC.
Transações com as Opções
A Binance é ocasionalmente a única entidade que vende Opções na sua plataforma. Normalmente, a negociação de Opções envolve duas partes independentes: um comprador e um vendedor. A CFTC salienta que estes casos envolvem de facto a negociação por parte da Binance em detrimento dos seus clientes.
Operações com informação privilegiada
A Binance implementou recentemente uma política destinada a limitar o abuso na utilização de informação privilegiada, exigindo que os seus administradores, funcionários e agentes cumpram essa política. No entanto, foi revelado que as 300 contas ligadas a Zhao ficaram isentas do cumprimento desta política e não estão sujeitas aos sistemas de vigilância contra a fraude e a manipulação.
Operações de lavagem
As bolsas de criptomoedas têm um longo historial no que diz respeito à utilização de Wash Trading para aumentar os volumes de negócio, criando a ilusão de uma maior atividade no mercado. A SEC descobriu que, de setembro de 2019 a junho de 2022, a Sigma Chain se envolveu neste tipo de negociações na Binance.US, aumentando significativamente o volume das transações. Surpreendentemente, nas primeiras horas após o lançamento da Binance.US, as transações entre a Sigma Chain e as contas pertencentes a Zhao e outros executivos da Binance representaram mais de 99% do volume de negócios, valor que diminuiu para 70% no fim do dia.
Embora a principal plataforma, a Binance. com, não tenha sido incluída nesta investigação, é importante referir o padrão da Binance ao empregar estratégias semelhantes em várias das suas empresas. Este facto revela uma certa ironia em relação aos comentários de Zhao feitos em 2019: “A CREDIBILIDADE é o ativo mais importante para qualquer bolsa! Se uma bolsa falsifica o seu volume de negócio, você pode confiar os seus fundos a essa empresa?”
Binance Futures: A principal razão por trás da volatilidade do mercado da Bitcoin
De acordo com um estudo publicado em 2022 na revista “Applied Mathematical Finance”, os contratos permanentes de BTC/USDT da Binance Futures são a principal razão para a volatilidade no mercado de Bitcoin. Os autores destacam uma importante desigualdade: estes contratos têm um impacto considerável nas outras ferramentas de negociação, sendo a influência oposta mínima ou, por vezes, negativa.
Esta dinâmica é muito diferente da dos mercados financeiros tradicionais, em que os Mercados à Vista e de Futuros se influenciam mutuamente. O estudo revela ainda a existência de um padrão em que um aumento do volume de transações na Binance Futures tende a preceder a uma subida da volatilidade da Bitcoin nos cinco minutos seguintes. Isto levanta uma questão preocupante: Quem é que acumula posições gigantescas de Futuros e depois provoca fortes flutuações nos preços apenas para afastar os pequenos investidores do mercado?
Os fluxos de volatilidade entre os principais produtos BTC-USD. Fonte: The Role of Binance in Bitcoin Volatility Transmission (O Papel da Binance na Promoção da Volatilidade da Bitcoin)
Será esta a nova LIBOR?
O mercado da Bitcoin é frequentemente objeto de comparações com as economias tradicionais, e não podemos deixar de pensar no caso da LIBOR. A LIBOR, que era a taxa de referência que servia de base para a avaliação do dinheiro a nível internacional e para a fixação de preços de derivados com o valor de centenas de triliões de dólares, foi manipulada por um grupo de grandes bancos para seu próprio benefício. Esta taxa de referência, surpreendentemente, era sustentada por um volume relativamente insignificante de empréstimos reais entre bancários – apenas cerca de 500 milhões de dólares por dia – e dependia de avaliações subjetivas que eram facilmente influenciadas pelos interesses próprios e pela conivência.
Após este escândalo, a supervisão desta taxa foi transferida para a Financial Conduct Authority (FCA) do Reino Unido, e as propostas dos bancos foram suspensas durante três meses para evitar abusos. No entanto, as práticas outrora proibidas nos mercados tradicionais estão a ressurgir no universo das criptomoedas. Desde esquemas de Ponzi que nos fazem recordar o caso de Bernie Madoff a encobrimentos financeiros semelhantes aos da Enron, o mercado das criptomoedas pode estar prestes a provocar a sua versão do desastre da LIBOR. No universo da Bitcoin, um instrumento fundamental para a fixação dos preços, que nem sequer se baseia na Bitcoin propriamente dita, mas sim em contratos, é dominado por uma única entidade – aumentando o receio de um escândalo em que a conivência nem sequer é necessária.
CoinMarketCap – Uma ferramenta ao serviço da guerra de informação
Quando a Binance adquiriu a CoinMarketCap em 2020, o principal órgão que reúne informações sobre o mercado das criptomoedas, gerou uma grande controvérsia. Esta aquisição suscitou preocupações imediatas relacionadas com o conflito de interesses, uma vez que a CoinMarketCap é responsável pela listagem e classificação das atividades das bolsas – uma função que agora está sob a alçada de uma única instituição.
Antes da aquisição por parte da Binance, a legitimidade dos dados relativos ao volume de transações da CoinMarketCap já estava sob investigação devido à suspeita da existência de uma inflação provocada por registos de volumes falsos. No entanto, verificou-se que, após a compra por parte da Binance, as classificações das bolsas no CoinMarketCap pareciam mais credíveis. Este facto não é totalmente inesperado, uma vez que a Binance já lidera as tabelas nas categorias ‘Spot’ e ‘Derivatives’ com volumes de negociação desproporcionados.
Existe, porém, uma manobra estratégica: A Binance tem a capacidade de influenciar quais são as criptomoedas que aparecem destacadas na CoinMarketCap. Ao omitir a oferta existente de certas moedas, a empresa manipula efetivamente as classificações do mercado. Dado que a CoinMarketCap classifica as criptomoedas por capitalização de mercado, que é o produto da oferta existente e do preço, ao omitir estes dados impede efetivamente que as moedas menos populares ganhem destaque.
Este método coloca os activos mais privilegiados na primeira página e remete os menos apoiados, por mais avançados que sejam, para a página 20 ou seguintes, a seguir a tokens com uma capitalização de apenas 5 dólares. Em contrapartida, outros fornecedores de dados, tais como a CoinGecko, apresentam com precisão a oferta em circulação de um ativo e classificam-no de forma correta. No entanto, se a Binance decidir excluir o fornecimento de um token em circulação na CoinMarketCap, este permanecerá oculto para o grande público da plataforma. Infelizmente, os esforços para retificar esta situação através da comunicação com a CoinMarketCap são muitas vezes inúteis.
A perspetiva da Binance
Para apresentar uma imagem completa, é essencial ter em conta a posição da Binance. A bolsa desafiou a autoridade da CFTC através da apresentação de recursos legais em julho e outubro de 2023, solicitando o encerramento do processo. A defesa de Binance argumenta basicamente que a CFTC não tem jurisdição sobre as acusações feitas contra a empresa. A documentação apresentada, embora seja bastante completa, não aborda as preocupações específicas levantadas nesta publicação e pela própria CFTC. Foi dada uma resposta semelhante às alegações da SEC.
Zhao admite ter duas contas na Binance: uma para o seu cartão Binance e outra para as suas participações no mercado das criptomoedas. Justifica que estas contas são necessárias para converter as criptomoedas em moeda corrente. Quanto às atividades das empresas envolvidas, Zhao descreve-as como operações normais para a disponibilização de liquidez. Esta descrição corresponde à defesa da BitMEX, embora revelações posteriores tenham mostrado que a BitMEX estava de facto, a negociar em detrimento dos seus clientes.
Patrick Hillmann, antigo diretor de estratégia da Binance, que entretanto deixou a empresa em conjunto com outros executivos de topo, também fez alguns comentários sobre o assunto. Patrick afirma que a Binance nunca fez uso das ordens stop ou das cotações de liquidação, ao contrário de outras bolsas, e que não negoceia contra os seus utilizadores, o que representa uma “enorme diferença” em relação às práticas da Alameda Research. No entanto, esta analogia pode não ser a mais adequada, considerando que a equipa de Bankman-Fried foi corajosamente vocal até aos momentos finais, quando foi encontrado um buraco de 8 mil milhões de dólares nas suas contas.



